N-acetilcisteína (NAC) no autismo — revisão crítica da meta-análise de 2020

N-acetilcisteína (NAC) no autismo — revisão crítica da meta-análise de 2020

Por que a NAC chamou atenção

A N-acetilcisteína (NAC) é uma substância antiga e segura, usada há décadas em hospitais — principalmente para tratar intoxicação por paracetamol e doenças respiratórias.
Nos últimos anos, começou a ser estudada também no autismo, com a ideia de que poderia reduzir irritabilidade, agitação e comportamentos repetitivos.

A hipótese vem de achados biológicos: o cérebro de algumas pessoas autistas mostra desequilíbrio entre neurotransmissores excitatórios (como o glutamato) e menores níveis de glutationa, uma molécula que protege as células contra o estresse oxidativo.
A NAC ajuda a repor a glutationa e regular o glutamato, o que despertou o interesse de pesquisadores.

O que essa pesquisa avaliou

Em 2020, pesquisadores de Taiwan publicaram uma revisão científica reunindo todos os estudos clínicos disponíveis sobre NAC no autismo.
Esse tipo de revisão, chamada meta-análise, junta os resultados de vários ensaios clínicos para tentar chegar a uma resposta mais confiável.

Foram incluídos cinco estudos com duração entre 8 e 12 semanas, todos feitos com crianças e adolescentes.
Os participantes receberam NAC (por via oral) ou placebo, e os efeitos foram avaliados por escalas amplamente usadas, como a Aberrant Behavior Checklist (ABC) e a Social Responsiveness Scale (SRS).

Principais resultados

  • A NAC mostrou melhoras pequenas em irritabilidade e hiperatividade.
  • Não houve melhora significativa em comportamentos repetitivos nem em habilidades sociais.
  • Os efeitos colaterais foram leves, como desconforto abdominal e constipação.

Com base nesses achados, os autores concluíram que a NAC seria “segura, bem tolerada e eficaz” para sintomas associados ao autismo.
Mas essa frase precisa ser lida com cuidado.

O que realmente aconteceu nos resultados

A revisão foi feita de forma estruturada e registrada previamente em um sistema internacional chamado PROSPERO, que serve para garantir transparência.
Mas, na hora de analisar os dados, os autores fizeram uma mudança importante:

Um dos cinco estudos — o de Wink et al. (2016) — incluía crianças com autismo mais leve (como Asperger).
Os autores decidiram retirar esse estudo da análise final, dizendo que ele tinha participantes “com funcionamento mais alto”.
Essa retirada não estava prevista no plano original da revisão.

E o detalhe mais relevante:
➡️ Com todos os cinco estudos incluídos, o resultado era muito pequeno e sem significado clínico.
➡️ Somente depois que o estudo foi excluído é que o resultado se tornou estatisticamente “positivo”.

Ou seja: sem essa exclusão, o efeito da NAC seria nulo.

Essa decisão não chega a invalidar a meta-análise, mas torna o resultado menos confiável, porque foi uma escolha feita após ver os números, e não antes.
Em ciência, esse tipo de ajuste é chamado de mudança pós-hoc — e sempre precisa ser interpretado com cautela, pois pode dar a impressão de um efeito que não é real.

Limitações importantes

  • Poucos estudos e amostras pequenas: cada ensaio tinha entre 29 e 98 participantes.
  • Qualidade variável: quatro dos cinco estudos apresentavam alto risco de erro.
  • Efeito discreto: mesmo após a exclusão do estudo, a melhora observada nas escalas foi muito pequena.
  • Duração curta: máximo de 12 semanas — não se sabe se o efeito, se existir, é duradouro.
  • Análise alterada após o resultado: isso enfraquece a confiabilidade das conclusões.

O que isso significa na prática

A NAC parece segura e bem tolerada, mas até o momento não há provas de que ela traga melhora consistente ou clinicamente relevante.
O efeito observado foi pequeno e dependente de uma modificação de análise feita após os resultados.

Em outras palavras:

A NAC pode ter algum potencial, mas não há comprovação de eficácia.
A evidência atual é exploratória, e novos estudos maiores e mais rigorosos são necessários.

 

Classificação da evidência Cognor

Critério
Avaliação
Significado
Baixo
🟠 Laranja
Os resultados são iniciais e dependem de ajustes pós-análise. A NAC parece segura, mas ainda sem eficácia comprovada.

Resumo final

  • O que se sabe: a NAC pode reduzir levemente irritabilidade e agitação em algumas crianças autistas.
  • O que falta saber: se esse efeito é real e duradouro.
  • O que mudou o resultado: a exclusão de um estudo com autismo mais leve fez o efeito “aparecer”.
  • Sem essa exclusão: o resultado teria sido nulo.
  • Conclusão responsável: a NAC é segura, mas não comprovadamente eficaz.

Para entender melhor

O que é uma meta-análise?
É uma pesquisa que combina resultados de vários estudos sobre o mesmo tema.
Por exemplo: se cinco grupos diferentes testaram NAC, a meta-análise junta todos os dados para ver se há um padrão.
Mas se os estudos originais forem pequenos ou de qualidade duvidosa, o resultado combinado também será fraco.

O que é o PROSPERO?
É um registro público onde os pesquisadores publicam o plano da revisão antes de começar.
Funciona como um “cartório da ciência”: serve para provar que os métodos e critérios foram definidos antes de analisar os resultados.
Isso ajuda a evitar manipulações e aumenta a transparência — mas não garante que o resultado final seja forte, apenas que é possível verificar se o plano foi seguido corretamente.



Referências

 

Nota editorial Cognor

Os conteúdos da Cognor são elaborados com base em evidências científicas e revisados periodicamente para garantir clareza, precisão e independência.
As informações têm caráter educativo e informativo, e não substituem avaliação ou recomendação médica individualizada.

 

 

Dr. José Evaldo Leandro Júnior Atualizado em: 11 de outubro de 2025

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