Diagnóstico do Autismo – Diferenças e Críticas entre o DSM-5-TR e a CID-11

Diagnóstico do Autismo – Diferenças e Críticas entre o DSM-5-TR e a CID-11

O diagnóstico do autismo é um dos temas mais debatidos nas neurociências contemporâneas.
Embora os critérios estejam formalmente definidos em dois manuais internacionais — o DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria, e a CID-11, da Organização Mundial da Saúde —, cada um expressa uma forma diferente de compreender o que é o autismo.

Essas diferenças ultrapassam a teoria. Elas afetam quem recebe o diagnóstico, o acesso a terapias especializadas e a forma como a sociedade interpreta o funcionamento autista.

Por que existem duas classificações?

O DSM-5-TR foi elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria para padronizar diagnósticos clínicos e pesquisas científicas em saúde mental.
Já a CID-11 foi desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde com o objetivo de padronizar a linguagem médica global, sendo usada em sistemas públicos, políticas de saúde e estudos epidemiológicos.

Ambos reconhecem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por dificuldades na comunicação social e comportamentos restritos e repetitivos, mas divergem no modo de definir e interpretar esses critérios.

DSM-5-TR: uma visão criterial e descritiva

O DSM-5-TR consolidou, em uma única categoria, diagnósticos que antes eram separados — como autismo infantil, síndrome de Asperger e transtorno invasivo do desenvolvimento.
Essa decisão teve como objetivo aumentar a consistência e a comparabilidade entre pesquisas e avaliações clínicas.

A definição se baseia em dois conjuntos de critérios:

  • Déficits persistentes na comunicação e interação social, incluindo reciprocidade emocional, contato visual, gestos e compreensão de sinais sociais;
  • Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, com rigidez, estereotipias e alterações sensoriais.

O manual também introduziu os níveis de suporte (1, 2 e 3), que descrevem a intensidade da necessidade de apoio diário.

A psicóloga Catherine Lord, uma das principais responsáveis pela construção empírica desses critérios e criadora dos instrumentos ADOS e ADI-R, foi decisiva para aproximar o diagnóstico clínico da observação padronizada.
Lord defende que o DSM trouxe maior objetividade e reprodutibilidade aos diagnósticos, mas reconhece que o modelo ainda tem limitações para capturar a diversidade de perfis autistas.

Casos com maior repertório verbal, mulheres com estratégias de compensação social e adultos com camuflagem comportamental podem ser subdiagnosticados.
A pesquisadora alemã Inge Kamp-Becker reforça essa crítica, argumentando que o DSM tende a privilegiar quadros mais evidentes e clássicos, em detrimento das formas mais sutis e contextualmente moduladas.

CID-11: uma visão contextual e flexível

A CID-11, publicada pela OMS, buscou corrigir parte dessas limitações ao propor uma formulação mais ampla e contextual.
Em vez de exigir uma contagem rígida de sintomas, o diagnóstico baseia-se em dois domínios essenciais:

  1. Déficits persistentes na capacidade de iniciar e manter interação e comunicação social recíproca.
  2. Padrões restritos, repetitivos e inflexíveis de comportamento, interesses ou atividades, incluindo respostas sensoriais atípicas.

A psicóloga Kirstin Greaves-Lord e o psiquiatra David Skuse, ambos envolvidos na formulação conceitual da CID-11, destacam que essa abordagem reflete melhor a variação natural das manifestações do espectro, permitindo que o diagnóstico considere o contexto cultural, ambiental e desenvolvimental de cada indivíduo.

A CID-11 também reconhece que algumas pessoas conseguem compensar sintomas por meio de esforço cognitivo e aprendizado social, o que amplia o reconhecimento de casos antes subestimados.

No entanto, Inge Kamp-Becker alerta para o risco de uma flexibilidade excessiva.
Segundo ela, a CID-11 descreve o autismo com termos vagos e não mensuráveis, como “dificuldades percebidas retrospectivamente” ou “compensações sutis”, abrindo espaço para diagnósticos baseados em interpretações subjetivas.
Essa subjetivação pode gerar falsos positivos e dificultar a replicação de estudos clínicos e neurobiológicos.

As principais diferenças em foco

Aspecto
DSM-5-TR
CID-11
Origem
Associação Americana de Psiquiatria (APA)
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Estrutura
Critérios fixos e numerados
Descrições abertas e contextualizadas
Domínios principais
Comunicação social e comportamentos repetitivos
Comunicação social e comportamentos repetitivos (inclui sensoriais)
Ênfase
Precisão e padronização diagnóstica
Contexto e diversidade de apresentação
Idade de início
Exige início precoce
Permite manifestação tardia
Níveis de suporte
Três níveis definidos
Não utiliza níveis de severidade
Crítica central
Rigor excessivo, risco de excluir casos sutis
Flexibilidade excessiva, risco de ampliar demais o espectro

Críticas recorrentes e implicações clínicas

1. DSM-5-TR

  • Proporciona padronização e objetividade, fundamentais para pesquisa e comparação internacional.
  • Contudo, é rígido e pode deixar de reconhecer pessoas que apresentam sofrimento real, mas não preenchem todos os critérios formais.
  • Favorece diagnósticos em crianças com sinais clássicos, mas subestima perfis atípicos, especialmente em meninas e adultos com adaptação social.

2. CID-11

  • É mais abrangente e sensível ao contexto, incluindo variações culturais e ambientais.
  • Entretanto, essa amplitude pode reduzir a precisão clínica e tornar os diagnósticos dependentes do julgamento do profissional.
  • A consequência é o risco de inflação das taxas de prevalência sem ganhos proporcionais em acurácia.

3. Para a prática clínica

  • O DSM-5-TR é mais útil em ambientes de pesquisa e avaliações padronizadas.
  • A CID-11 é mais apropriada para sistemas de saúde pública e políticas de inclusão, que valorizam o impacto funcional e não apenas a sintomatologia.

Uma síntese crítica

Kirstin Greaves-Lord observa que nenhum dos dois sistemas é suficiente para capturar toda a complexidade do espectro autista.
O DSM-5-TR mantém uma visão médica e comportamental, centrada em déficits observáveis, enquanto a CID-11 aproxima-se de uma visão psicológica e dimensional, mais coerente com a ideia de neurodiversidade.

Mesmo assim, Inge Kamp-Becker adverte que, ao priorizar a experiência interna e a autoavaliação, a CID-11 corre o risco de enfraquecer a verificabilidade e a precisão científica do diagnóstico.

A combinação equilibrada das duas abordagens parece ser o caminho mais sólido:

  • O DSM-5-TR oferece estrutura e comparabilidade internacional.
  • A CID-11 acrescenta sensibilidade clínica e adaptação cultural.

Para clínicos e famílias, o diagnóstico deve ser visto como uma ferramenta de compreensão, não de limitação — um ponto de partida para identificar necessidades, planejar terapias e construir ambientes mais adequados às diferenças de cada indivíduo.


Referências bibliográficas

Tags: autismo, DSM-5-TR, CID-11, diagnóstico, neurodesenvolvimento, neurodiversidade, critérios clínicos, saúde mental infantil

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Dr. José Evaldo Leandro Júnior Atualizado em: 11 de outubro de 2025

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