Por que o modelo “leve moderado ou severo” é problemático
Durante muito tempo, o autismo foi descrito em categorias como “leve”, “moderado” ou “severo”. Essa forma de classificação ignora a grande diversidade de perfis dentro do espectro e acaba misturando coisas diferentes — a intensidade dos sintomas e o nível de autonomia ou adaptação da pessoa.
O uso de rótulos fixos também teve consequências práticas negativas.
O termo “leve”, por exemplo, muitas vezes serviu para limitar o acesso a terapias e apoios essenciais, enquanto “severo” frequentemente resultou em estigmatização e baixa expectativa de progresso.
Para corrigir essas distorções, o DSM-5-TR substituiu essa antiga forma de classificação pela noção de níveis de suporte, que descrevem a quantidade de ajuda necessária para que a pessoa consiga funcionar de forma adequada no dia a dia.
Essa mudança marcou uma virada importante: o foco deixou de estar apenas na gravidade dos sintomas e passou a considerar as necessidades reais de apoio em diferentes contexto.
O que são os níveis de suporte no DSM-5-TR.
Segundo o DSM-5-TR, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido por dois conjuntos principais de características:
- Dificuldades na comunicação e interação social
- Comportamentos, interesses e atividades restritos ou repetitivos
Depois de confirmar o diagnóstico, o profissional avalia o nível de suporte necessário em cada um desses domínios:
Nível 1 – Requer suporte
As dificuldades são perceptíveis, mas a pessoa consegue algum grau de independência quando recebe ajuda estruturada.
Nível 2 – Requer suporte substancial
Os desafios de comunicação e a rigidez de comportamento são evidentes mesmo com apoio. O funcionamento diário fica bastante comprometido.
Nível 3 – Requer suporte muito substancial
Os prejuízos na comunicação e a inflexibilidade são graves. A autonomia é bastante limitada, exigindo suporte contínuo e multiprofissional.
Apesar da utilidade desse sistema, os pesquisadores que estudaram sua aplicação chamam atenção para a subjetividade dos critérios.
A psicóloga Micah Mazurek, da Universidade da Virgínia, observou que, embora o manual ofereça exemplos descritivos, não existem definições precisas que orientem como cada nível deve ser atribuído, deixando margem a interpretações diferentes entre profissionais.
De forma semelhante, Lauren Gardner e sua equipe, na Universidade Johns Hopkins, destacaram que a determinação dos níveis de suporte ainda depende fortemente do julgamento clínico individual, o que pode gerar variações consideráveis entre avaliações realizadas em diferentes contextos.
Pesquisas conduzidas por Micah Mazurek e por Lauren Gardner também mostraram que esses níveis de suporte nem sempre refletem apenas a intensidade dos sintomas do autismo.
Fatores como idade e quociente de inteligência (QI) influenciam fortemente a classificação.
Em muitos casos, crianças com QI mais baixo foram classificadas em níveis mais altos de suporte, mesmo apresentando sintomas de gravidade semelhante aos de outras com maior desempenho cognitivo.
Esses resultados indicam que, na prática, os profissionais costumam considerar não só os sintomas, mas também as capacidades cognitivas e adaptativas da pessoa.
A pesquisadora Erin Weitlauf, da Universidade Vanderbilt, também chamou atenção para o fato de que ainda faltam critérios padronizados para diferenciar com precisão um nível de suporte de outro, o que pode gerar variações entre avaliadores e instituições.
A classificação diagnóstica segundo a CID-11
A Classificação Internacional de Doenças, em sua 11ª edição (CID-11), publicada pela Organização Mundial da Saúde, também descreve o Transtorno do Espectro do Autismo (código 6A02), mas com um modelo diferente do DSM.
Em vez de “níveis de suporte”, a CID-11 propõe subcategorias diagnósticas que combinam duas informações principais:
o funcionamento intelectual e a preservação da linguagem funcional.
Os códigos são:
- 6A02.0 – Sem deficiência intelectual e com linguagem funcional preservada
- 6A02.1 – Com deficiência intelectual e com linguagem funcional preservada
- 6A02.2 – Sem deficiência intelectual e com linguagem funcional prejudicada
- 6A02.3 – Com deficiência intelectual e com linguagem funcional prejudicada
- 6A02.Y – Outro transtorno do espectro do autismo especificado
- 6A02.Z – Transtorno do espectro do autismo não especificado
A linguagem funcional é entendida como a capacidade de se comunicar de forma eficaz, usando frases compreensíveis e ajustadas ao contexto social.
Já a deficiência intelectual se refere a limitações significativas em habilidades conceituais, sociais e práticas do cotidiano.
Dessa forma, a CID-11 descreve perfis de funcionamento e não graus de gravidade.
Essa abordagem ajuda a compreender melhor o que a pessoa consegue fazer e quais adaptações são necessárias, sem rotulá-la como “leve” ou “severa”.
Estudos recentes, liderados por Silvia Silleresi, na Universidade de Tours, confirmam que esses perfis propostos pela CID-11 aparecem de forma clara na prática clínica e são independentes da intensidade dos sintomas. Isso reforça a ideia de que linguagem, cognição e sintomas autísticos são dimensões distintas, que precisam ser avaliadas separadamente.
Uma visão mais ampla sobre funcionalidade e impacto real do autismo
Estudos recentes coordenados por Elisheva Waizbard-Bartov, em 2023, mostraram que a gravidade dos sintomas autísticos é apenas um dos fatores que explicam o impacto do autismo na vida cotidiana.
O grau de limitação funcional depende também de aspectos cognitivos, linguísticos e emocionais, além de condições do ambiente — como o acesso a terapias, o suporte familiar e as barreiras sociais.
Essas evidências reforçam a importância de compreender o autismo de forma multidimensional, unindo a avaliação dos sintomas centrais (como propõe o DSM-5-TR) com a análise do perfil cognitivo e linguístico (descrita na CID-11).
Integração dos modelos
O DSM-5-TR e a CID-11 se complementam.
Enquanto o DSM descreve quanto suporte a pessoa precisa para lidar com as demandas do cotidiano, a CID define quais são os perfis de funcionamento, levando em conta cognição e linguagem.
As pesquisas mais recentes mostram que:
- os níveis de suporte do DSM tendem a acompanhar o QI e a idade, mais do que a gravidade isolada dos sintomas;
- os perfis cognitivo-linguísticos da CID ajudam a compreender melhor as diferenças entre pessoas com o mesmo diagnóstico;
- e a avaliação clínica mais atual integra esses dois eixos — suporte adaptativo (DSM) e perfil funcional (CID) — para representar de maneira mais fiel a complexidade do espectro.
Essa forma de compreender o autismo vem aproximando o diagnóstico clínico das necessidades reais de cada indivíduo, favorecendo abordagens mais personalizadas e humanizadas na prática médica, educacional e terapêutica.
Referências
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
- Gardner LM, Campbell JM, Keisling B, Murphy L. Correlates of DSM-5 Autism Spectrum Disorder Levels of Support Ratings in a Clinical Sample. J Autism Dev Disord. 2018 Oct;48(10):3513-3523. doi: 10.1007/s10803-018-3620-z.
- Mazurek MO, Lu F, Macklin EA, Handen BL. Factors associated with DSM-5 severity level ratings for autism spectrum disorder. Autism. 2019 Feb;23(2):468-476. doi: 10.1177/1362361318755318.
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- Silleresi S, Prévost P, Zebib R, Bonnet-Brilhault F, Conte D, Tuller L. Identifying Language and Cognitive Profiles in Children With ASD via a Cluster Analysis Exploration: Implications for the New ICD-11. Autism Res. 2020 Jul;13(7):1155-1167. doi: 10.1002/aur.2268.
- Weitlauf AS, Gotham KO, Vehorn AC, Warren ZE. Brief report: DSM-5 “levels of support:” a comment on discrepant conceptualizations of severity in ASD. J Autism Dev Disord. 2014 Feb;44(2):471-6. doi: 10.1007/s10803-013-1882-z.
- World Health Organization. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11): Autism Spectrum Disorder.WHO, 2019.



