Ácido folínico (Leucovorina)

Ácido folínico (Leucovorina)

Visão geral

O ácido folínico (também conhecido como leucovorina ou 5-formil-tetraidrofolato) é uma forma ativa do folato, vitamina essencial para o metabolismo celular e cerebral.
Diferente do ácido fólico comum, ele já está na forma reduzida, podendo atravessar melhor a barreira hematoencefálica.

Pesquisas sugerem que parte das pessoas autistas apresenta alterações no metabolismo do folato, incluindo autoanticorpos contra o receptor de folato alfa (FRAA), que impedem o transporte adequado dessa vitamina para o cérebro.
Nesses casos, o ácido folínico pode restaurar o folato cerebral e favorecer a função neuronal, especialmente em linguagem e regulação comportamental.

 O que a ciência já sabe

Ensaios clínicos randomizados avaliaram o uso de ácido folínico em crianças com autismo, em doses de 1 a 2 mg/kg/dia (máx. 50 mg/dia) por 3 a 6 meses.
Os resultados mais frequentes indicam melhoras discretas a moderadas em comunicação e comportamento adaptativo, particularmente em crianças com biomarcadores alterados (anticorpos anti-FRAA ou variantes genéticas na via do folato).

Apesar de resultados promissores, a maioria dos estudos tem amostras pequenas, curta duração e ausência de replicação independente, o que reduz a confiança geral.

Domínio avaliado
Efeito observado
Força da evidência
Confiança
Gravidade global do autismo
Redução modesta nos escores clínicos (CARS, ABC-C)
⭕ Baixo
🔻 Muito baixo
Linguagem e comunicação verbal
Interação social e reciprocidade
🔸 Moderado
⭕ Baixo
Interação social e reciprocidade
Aumento discreto no engajamento e atenção compartilhada
⭕ Baixo
🔻 Muito baixo
Comportamentos repetitivos / estereotipias
Redução pequena, sem consistência entre estudos
🔻 Muito baixo
🔻 Muito baixo
Comportamentos adaptativos (Vineland)
Ganhos funcionais modestos após 3 meses de uso
⭕ Baixo
🔻 Muito baixo
Segurança e tolerabilidade
Eventos leves e transitórios (irritabilidade, insônia leve)
🟢 Alta
🟢 Alta

 Principais estudos

Estudo
Tipo / Duração
Amostra
Dose
Resultados principais
Limitações
Frye et al., 2016 – Molecular Psychiatry
Duplo-cego, placebo, 12 sem
48 crianças
2 mg/kg/dia
Melhora em linguagem; efeito maior em FRAA positivos
Amostra pequena, curta duração
Batebi et al., 2020 – Child Psychiatry & Human Development
Duplo-cego, placebo, 10 sem
55 crianças
2 mg/kg/dia + risperidona
Redução em fala inapropriada e hiperatividade
Uso concomitante de antipsicótico; medida subjetiva
Renard et al., 2020 – Biochimie (EFFET trial)
Duplo-cego, placebo, 12 sem
40 crianças francesas
5 mg 2x/dia
Melhora discreta nos escores de autismo; boa tolerabilidade
Efeito modesto, amostra pequena
Panda et al., 2024 – European Journal of Pediatrics
Duplo-cego, placebo, 24 sem
80 crianças
2 mg/kg/dia
Melhora moderada em CARS e CBCL; sem eventos adversos graves
Avaliação subjetiva; estudo único
Zhang et al., 2025 - Nutrients
Duplo-cego, 12 sem
76 crianças
2mg/kg/dia
Melhora em interação social e motricidade; resposta maior em variantes MTHFR
Heterogeneidade genética e cultural; curta duração

 Como pode funcionar

O ácido folínico pode atuar por diferentes mecanismos:

  • Restaura o transporte de folato para o cérebro, mesmo na presença de autoanticorpos;
  • Reduz o estresse oxidativo, aumentando a produção de glutationa;
  • Favorece a metilação e síntese de neurotransmissores, essenciais para a linguagem, atenção e regulação emocional.

Esses efeitos são bioquimicamente plausíveis, mas ainda carecem de confirmação clínica robusta.

 Em que casos pode ajudar

O benefício é mais provável em:

  • Crianças com anticorpos anti-receptor de folato alfa (FRAA positivos);
  • Portadores de polimorfismos genéticos (MTHFR, MTR, MTRR);
  • Casos com atraso significativo de fala ou linguagem.

Até o momento, não há evidência suficiente para uso rotineiro em todos os indivíduos com TEA.

Segurança e efeitos colaterais

Os estudos mostram boa tolerabilidade.
Efeitos leves relatados incluem:

  • irritabilidade ou agitação inicial;
  • insônia leve;
  • raramente, desconforto abdominal.

Esses sintomas costumam desaparecer com ajuste de dose ou uso matinal. Nenhum evento adverso grave foi descrito.

 O que falta saber

  • Duração ideal e persistência dos efeitos após a suspensão;
  • Efetividade em adolescentes e adultos;
  • Interações com outras terapias metabólicas (como B12 e antioxidantes);
  • Definição de subgrupos que realmente se beneficiam (biomarcadores preditivos).

 

Critério
Avaliação
Força geral da evidência
⭕ Baixo
Consistência entre estudos
🟠 Limitado
Segurança
🟢 Alta
População mais beneficiada
Crianças com alteração metabólica de folato
Dr. José Evaldo Leandro Júnior Atualizado em: 11 de outubro de 2025

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